Literatura 1- O GRANDE XARAM

Por Mauricio Dias

Agora vou falar pra vocês do grande Xaram. Para os jovens, um completo desconhecido, mas os mais velhos decerto se lembrarão dele. E eu começo sua estória quase no fim, nos anos 80, com um diálogo que na verdade é um monólogo:

– Já estive na Espanha. – Disse Xaram.

– Eu também tava lá. – Respondeu o boneco.

– Eu estive na Inglaterra.

– Eu também tava lá.

– Tinha muito sem-vergonha.

– Eu já tinha saído de lá-á.

Gargalhada geral na platéia.

E Xaram sorriu junto com eles, satisfeito consigo mesmo. Embora ele estivesse velho e doente, ainda sabia animar uma platéia. E isso era um feito, pois mesmo que as festas de ontem fossem iguais às de hoje, com crianças chatas gritando e soprando língua-de-sogra na cara dos outros, brigas e bexigas estourando, as crianças em si tinham mudado. – Hoje em dia só querem saber desses jogos eletrônicos, essas máquinas de fazer doido com seu pi-pi-pi-pi-pi-pi infernal. Está cada vez mais difícil para a velha arte do ventriloquismo competir com esses aparelhos japoneses. Ahhh… Tivesse caído uma terceira bomba nuclear, essa bem no meio de Tóquio, e nada disso estaria acontecendo hoje… – Ranzinzava Xaram, tentando achar um culpado para seus problemas pessoais. E ele se lembrava de sua infância, de seu primeiro boneco, de seu pai lhe ensinando os macetes do palco com seu sotaque romeno. E quase chorava ao pensar num possível fim dessa arte milenar.

Mas no momento tinha preocupações mais imediatas. Agora, com a barriga já cheia de salgadinhos, ia até à agência, ver se tinha trabalho pra próxima semana. Guardou Frodo, seu boneco, na mala, junto com alguns docinhos pra depois; e seguiu pra agência, tossindo muito no caminho.

Lá chegando, encontrou Danilo. Simpatizava com o garoto, um jovem ventríloquo iniciante. Sabia que ele teria um caminho duro pela frente. – Pelo menos eu já estou terminando, ele está começando agora, nesses tempos difíceis – Pensava. E o garoto o fazia lembrar de si mesmo quando jovem, e de certa forma o fazia lembrar de Pedro, de quem falarei mais tarde. Mas ao mesmo tempo que gostava do garoto, não podia esquecer que ele era seu concorrente. É, eram mesmo tempos difíceis esses. E o que mais o chateava era lembrar que já tinha visto a cara risonha do sucesso. No final dos anos 40 havia sido uma grande atração no rádio (Não me perguntem que interesse pode haver num ventríloquo radiofônico, pois eu não saberia explicar). Chegou a ter um quadro com José Vasconcelos. JOSÉ VASCONCELOS ! E isso antes do sonho louco da Vasconcelândia.

Veio a TV. Seu sucesso não seguiu como seria de se esperar. Não que não fosse bom ventríloquo, era o melhor. Qualquer um que olhasse a TV com o máximo de atenção, ainda assim não veria nenhum movimento labial. Mas, uma dessas coisas que acontecem sem explicação, não fez sucesso na TV; e no rádio já não tinha mais espaço pra grandes espetáculos.

De qualquer forma, naquela época não tinha direito de se queixar. Convenções e shows eram o suficiente para ele se manter. Ainda tinha nome na praça e obtinha bons cachês.

E assim foi durante muitos anos. Mas a situação começava a apertar. Voltou a ter de fazer festas de criança. Não que desgostasse de crianças, elas eram a base de seu público; ele não gostava era de platéias pequenas, apenas uma dúzia de crianças a lhe dar atenção. Ele era o Grande Xaram ! Decidiu que não precisava daquilo e que iria correr o Brasil numa série de tournês. Todos os seus fãs pagariam para vê-lo.

Estrada, estrada, estrada. Sul, norte, leste, oeste, deu show até na nova capital. Anoitecia numa cidade, amanhecia em outra.

E foi no interior paulista que tudo aconteceu. Conheceu uma mulher. A mulher. Uma filha única de um vendeiro viúvo, a mãe morrera no parto. E talvez por ser a maior lembrança da falecida, era o xodó do pai, que não queria vê-la metida com um artista; que pro pai, artista, ladrão, cigano e mulher da vida davam no mesmo. Mas a paixão era mútua, e acabaram dobrando o velho. Xaram ficou por ali mesmo, trabalhando na venda do pai dela. Depois de ano, ano e meio, e dois, já não agüentava mais aquela vida: o palco estava em seu sangue. Ela não queria vir pra cidade com ele, a vida dela era ali, junto ao pai; e depois de muita discussão ele acabou vindo sozinho. Fugiu.

Ele nunca se adaptou à sua perda. Escreveu algumas vezes, não houve resposta. E tinha medo de voltar lá, medo da reação do pai. E, principalmente, medo da reação dela. E se o ignorasse completamente? Era melhor assim como estava, pois ao menos podia satisfazer seu orgulho masculino, podia dizer que ele é que tinha cansado dela. Mas sentia sua falta, e como. Principalmente de noite, quando chegava de uma apresentação e não encontrava nada além de uma casa vazia. Muitas vezes conversava com Frodo. Por que Deus nos faz sofrer dessa maneira?

Mas Frodo não acreditava em Deus. E sempre que Xaram se lamentava, o pequeno pagão pensava: Bem feito! Quem mandou querer ser gente? Pois Frodo acreditava piamente que todas as pessoas eram ex-bonecos de madeira que resolveram um dia virar gente e viver. E tome uma vida insegura e cheia de preocupações pela frente. Mas isso não aconteceria com ele: Frodo estava muito feliz em ser um boneco de madeira. Suas preocupações se resumiam em duas coisas: Fogo e cupim. Nada de precoupaçoes com dinheiro, dor ou problemas do coração. – Eu, hein, pra que um coração? Pra que duas aurículas e dois ventrículos, se pra estar vivo só precisava de um ventríloquo?

É claro! Essa era a única razão para que o pobre Xaram (- Xaram, pode haver um nome mais ridículo que esse? – Pensava Frodo.) existisse: Para que ele, Frodo, a única e verdadeira estrela do espetáculo, vivesse e divertisse a todos os ex-bonecos, pobres almas arrependidas que não tem como voltar para o útero de madeira no qual foram gerados.

Frodo sabia disso tudo. Não contava a Xaram, pois não queria magoá-lo. Além disso, Xaram, enciumado e humilhado poderia querer se vingar a golpes de machado ou com um galão de querosene. Assim ele apenas ouvia as lamentações do parceiro. Não precisava falar nada, Xaram falava pelos dois. E começou a beber, ele que nunca fôra disso. E bebia e bebia, e vomitava de vez em quando. E já não se incomodava mais em fazer festas de criança, queria era garantir o da bebida.

Passado um ano, Xaram viu que aquela bebedeira toda não fazia sentido. Mas o que faz sentido nesse mundo?…Ah, o sorriso das crianças, o Oh coletivo que elas soltavam ao ver Frodo falando, esses momentos justificavam tudo. Isso lhe deu um sopro de vida pra acabar com aquele bafo de cachaça. Outras mulheres vieram, mas acabaram mesmo sendo apenas outras. Os anos correram, já estávamos em meados dos anos 70, Xaram envelhecia.

Um dia, andando pela cidade, encontrou alguém do passado. Um amigo dos tempos que passou ao lado dela. O que diabos estaria fazendo ali? Quis falar com ele, mas ficou envergonhado e tentou se esconder. A vergonha não era por ter fugido, mas por saber que ele próprio já não era mais o sombra do homem que havia sido.

Mas a curiosidade acabou sendo mais forte que a vergonha. Foi falar com ele, queria saber dela. Só que o outro virou a cara.

– Que que há, Paulo, não se lembra de mim?

– Lembro. Lembro que você largou sua mulher grávida e desamparada.

– Grávida?

E então ele ficou sabendo de tudo. Que ela tinha tido um filho dele. Que ele era pai dum garoto que devia ter agora uns doze anos. No dia seguinte pegou um ônibus pra tal cidade. Como será seu filho? Como estará a mulher? A essa altura já deve ter casado já outra vez. A expectativa do reencontro, aquele frio na barriga… E lá chegando, foi logo percebendo as muitas mudanças: Tudo muito mudado, a cidade crescera no milagre econômico. Conseguiu algumas informações com uns velhos conhecidos, dadas com má vontade. O pai dela, um de seus maiores temores era agora apenas um nome numa lápide. E ela tinha passado a venda diante e se mandado pra ninguém-sabe-onde.

Deu uma passada pelo teatro local. Foi lá que numa de suas exibições a viu pela primeira vez, linda no meio da platéia, com um vestido de seda azul e os longos cabelos presos num coque. O teatro tinha virado um cinema de pornochanchada.

Voltou pra cidade grande sem ter a menor referência de onde ela poderia estar. Houve uma recaída, tomou um grande porre no apartamento:

– Sabe, Frodo, eu achava que só tinha você, mas…eu tenho um filho, sabia?

E essa agora. Não bastava um Xaram, havia ainda um Xaram Jr. perdido em algum canto por aí. – Pensou Frodo, sem nada falar.

– Pedro… – Esse era o nome do garoto, conforme lhe disseram. Como seria ele? Onde estaria? Ah, a vida nos prega cada peça digna de teatro… E a partir de então, em cada festa, cada garoto que sorria ao ver Frodo falando, virava Pedro por alguns instantes. Passaram-se anos, Xaram nunca teve notícias do Pedro original ou da ex.

Foi aí que conheceu Danilo, o jovem ventríloquo, e resolveu que ele lembrava seu garoto. Deviam ter mais ou menos a mesma idade, e gostaria que seu filho tivesse aprendido a manejar o boneco (não dava camisa pra ninguém, mas, afinal, era uma tradição de família).

E a medida que se aproximava do final da vida, ia se apegando mais e mais a essa ilusão: amava Danilo como se fosse seu filho. Ensinou-lhe alguns truques da profissão e coisas da vida em geral. E Danilo retribuía esse amor. E acompanhou o velho Xaram, enquanto ele definhava, crise após crise. O velho já não trabalhava mais à essa altura, encontrava-se confinado num quarto de hospital.

Frodo estava lá com ele, e tanto o velho como o boneco sabiam que aquele era seu último dia. Xaram não temia a morte, só queria que Danilo estivesse com ele no final. O garoto tinha uma festa naquele dia e iria visitá-lo assim que terminasse. Xaram ficou na cama, barganhando com a morte por mais algumas horas de vida. Enquanto esperava pôde se entreter com um passarinho que cantava, pousado no parapeito da janela.

Finalmente Danilo chegou.

– E então, como foi lá?

– Ora, foi só uma festa de criança.

– Não, nunca é só uma festa de criança ! É um show, um espetáculo, não se esqueça disso. Enquanto uma única criança sorrir, é por que ainda vale a pena.

O rapaz balançou a cabeça, aquiescendo.

Ficaram em silêncio por algum tempo, até que o velho resolveu falar:

– Bem, nós dois sabemos que eu vou morrer. – Disse o velho entre uma tosse e outra. – Não tente fingir que não sabe. Não nos veremos mais. Não tenho muito, mas o que tenho ficará pra você. Inclusive o que me é mais valioso. – Disse, olhando para Frodo, que estava sobre uma cadeira. – Adeus, filho.

E com essas palavras Xaram seguiu para o eterno desconhecido.

Gostaria de dizer que no enterro uma legião de fãs e amigos chorou por ele. Mas estaria mentindo. Uns poucos gatos pingados, incluindo Danilo, com Frodo em seus braços.

Todos pesarosos pela morte de Xaram. – Vão-se os ventríloquos, ficam os bonecos. – Pensou Frodo. Mas se consolou ao ver Xaram sendo carregado no caixão: Seu ex-companheiro conseguiu retornar ao útero de madeira, onde reinam os bonecos.

E se imaginou contracenando com Xaram num palco maravilhoso, bem iluminado, com uma grossa cortina de veludo verde, chiquérrima e cafonérrima, como costumava ser nos velhos e bons tempos idos: ambos sob a luz de um holofote, com centenas de pares de olhos grudados neles.

– Eu já estive na França.

– Eu também tava lá.

– Eu já estive na Inglaterra.

– Eu também tava lá.

– Eu já estive por cima, já estive por baixo; agora devo deixar o palco.

– Azar o seu, trouxa. Quem mandou querer ser gente?

Gargalhada geral na platéia.

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