Se os diretores respeitassem o público de cinema pipoca

Por Mauricio Dias

Existem na história do cinema filmes que alcançaram as maiores realizações em termos dramáticos e plásticos: ‘Ran’ e ‘Céu e Inferno’ de Kurosawa, ‘O Sétimo Selo’ de Bergman, ‘8 e 1/2′ de Fellini, ‘M’ de Fritz Lang, apenas para citar alguns exemplos. E dentro do cinema comercial americano, o dito ‘cinemão’, alguns diretores conseguiram realizar filmes que alcançaram semelhante patamar: ‘Crepúsculo dos Deuses’, e ‘A Montanha dos Sete Abutres’, de Wilder, ‘Rastros de Ódio’, de John Ford, os principais filmes de Coppola e Scorsese nos anos 1970. Também aqui seria possível citar outros exemplos.

Os roteiros dos filmes que pretendo comentar neste artigo não estão, de maneira alguma, no patamar de qualidade dos citados acima. Venho falar dos filmes descartáveis, feitos unicamente para o entretenimento, mas que cumprem uma função lúdica importante ao cinema, e muitas vezes geram divisas estrondosas que são em parte responsáveis por permitir que os estúdios continuem de pé, e aptos a produzir filmes de diretores/roteiristas cheios de qualidade artística, mas não muito rentáveis do ponto de vista comercial – como Robert Altman e Woody Allen.

Escrevi num outro texto: “A trama dramática tem que ser crível. Não estão incluídos aqui os filmes de ação, as comédias, os filmes musicais e surrealistas, cujos textos tem que atender a exigências de outra ordem. Nestes, se a história ganhar com uma determinada mentira, se aquilo enriquecer o conjunto, chuta-se a verossimilhança. Assim, Indiana Jones pode escapar de tiros de metralhadoras, Fred Astaire pode dançar no teto o quanto quiser e os Cavaleiros da távola redonda da versão Monty Python podem usar cocos em vez de cavalos, e isto funciona maravilhosamente bem.”

Mas é claro que nem nestes gêneros o roteirista deva violar o bom senso gratuitamente. Ao elaborar-se roteiros para filmes descartáveis, feitos unicamente para o entretenimento, também é necessária por parte do roteirista a preocupação com a lógica.

Ao falar destes filmes, é preciso deixar claro antes o conceito de ‘suspensão de credibilidade’. A definição deste termo pode variar de acordo com o autor, então vou colocar o que ele me parece ser, a grosso modo: É dever do espectador, antes de pagar pra ver um filme, ou mesmo ao sentar para vê-lo na TV, ter um mínimo de informações sobre o que ele vai ver. Em se tratando de um filme do agente 007 ou um filme de terror sobre mortos-vivos que devoram cérebros de seres humanos, o espectador já sabe que vai ver uma obra descartável, feita unicamente para o entretenimento, e sem compromisso com o que se convencionou chamar a ‘realidade em que vivemos’.

Ao se dispor ao assistir um filme com estas características o espectador está, de certa forma, passando uma procuração ao realizadores da obra para ‘mentir para ele, espectador’.

Falei para um casal de amigos que a versão de Peter Jackson para o ‘King Kong’ (a de 2005) era divertida e valia pena ser vista no cinema, pela qualidade dos efeitos visuais. Encontrando-os, algumas semanas depois, fui cobrado: “- Como VOCÊ (logo eu que estudei cinema, e deveria conhecer o assunto) fala que aquele filme é bom? Aquela estória é ridícula…”

Tive que defender meu ponto de vista. Os meus amigos em questão são pessoas urbanas, de classe média alta, nascidas pós 1970. Eles sabiam que duas versões oficiais de ‘King Kong’ já haviam sido feitas para o cinema, uma em 1933, outra em 1976. Ambos tinha visto a de 1933. Eles conheciam a história, sabiam do que se tratava, que ela era pueril e fantasiosa. Então eles foram ao cinema para ver o King Kong em ação seqüestrando a moça, lutando contra tiranossauros, enfim, o já conhecido. E ir ao cinema pra ver um gorila gigante lutando contra tiranossauros é perfeitamente válido. Não tinha como reclamarem da história, dado o que eles já sabiam sobre a versão original do filme. As únicas reclamações que eles fizeram que me pareceram pertinentes eram: 1) Leva muito tempo até chegar na ilha; 2) o filme tem três horas, poderia ser muito mais curto.

E aqui devo colocar outro exemplo: uma pessoa sai de casa para assistir uma adaptação para o cinema da história em quadrinhos ‘Super-Homem’. Aí, cada vez que o personagem-título aparecer na tela voando o espectador pensa: ‘Isto é uma mentira, não há Super-Homem no mundo real’. Num caso destes, eu diria que o espectador em questão ou 1) desconhece que aquele personagem, apesar de totalmente ficcional e inverossímil, já está implantado no inconsciente coletivo por mais de cinqüenta anos de quadrinhos, séries de TV, filmes; ou 2) conhecendo isto tudo, não tinha interesse nenhum em ver o filme (um direito inalienável de todos), mas foi ao cinema para acompanhar alguém, filho/a, namorada/o, esposa/o. Porque, uma vez que você sabe do que consiste o personagem ‘Super-Homem’, se você senta para assistir a um filme no qual ele apareça, você tem de aceitar que ele voa à velocidades astronômicas, é feito de aço, é super-forte, tem visão de raio X, etc. É um pacto estabelecido entre o espectador e o ‘contador da história’, sem o qual não se há a relação ficcional entre emissor/receptor. Apenas uma curiosidade, no caso do Super-Homem: inicialmente, quando o personagem foi criado em quadrinhos, não tinha a capacidade de voar, apenas saltava mais alto do que um prédio. O vôo foi incorporado ao seu rol de poderes posteriormente.

Então, já vimos que um espectador questionar a habilidade de vôo do Super-Homem seria algo sem sentido. No entanto, há muitos questionamentos que são lógicos e legítimos se os desejarmos. Se quisermos ser detalhistas ao extremo, sobre a invulnerabilidade do personagem, cabe a pergunta: como o casal Kent, que o adotou na terra, cortava seus cabelos e unhas? Eles não são tão duros quanto o resto do corpo?

Pois a ‘suspensão de credibilidade’ deve dirigir-se inicialmente apenas aos termos já conhecidos. Aceitamos que o Super-Homem voe, mas se no meio do filme vier a ser mostrado que a personagem Lois Lane também tem a capacidade de voar, teremos o direito de estranhar: isto não estava incluído no pacto.

Por isto, quem fosse ao cinema em 1978 ver o filme feito naquele ano, não precisaria aceitar que o Super-Homem, voando mais rápido que a velocidade da luz, em sentido contrário à rotação da terra, pudesse voltar no tempo. Não havia precedentes para aquilo.

Mas, como o público endossou o filme, o poder de voltar no tempo acabou sendo aceito. Da mesma forma que a capacidade de vôo, foi incorporado ao seu rol de poderes posteriormente. Passados quase trinta anos, não creio que o poder de voltar no tempo tenha sido reutilizado na ‘mitologia’ do personagem desde então; mas se algum escritor de quadrinhos, roteirista de cinema ou TV, quiser usá-lo novamente, já há o que em direito se chama ‘jurisprudência’.

Revendo o filme na TV, particularmente triste nesta relação ‘mundo real/ mundo ficcional’ é lembrar que o ator que faz o Super-Homem nesta série dos anos 1970/80 ficou tetraplégico por causa de uma queda de cavalo. Quando logo aquele que era invulnerável e mais rápido que uma bala tornou-se indefeso e imóvel, ficamos todos diante de uma insuportavelmente cruel ironia. Cristopher Reeve foi um símbolo na luta dos deficientes por melhorias médicas, criando e dando suporte a uma fundação dedicada a pesquisas médicas sobre o assunto, incluindo as com células-tronco. (http://www.imdb.com/name/nm0001659/bio). Morreu em 2004.

Mudemos o foco para um filme semelhante, que tem uma cena que muito me incomodou: o ‘Homem-Aranha’ de Sam Raimi, de 2002. Todo mundo conhece a história: Peter Parker, adolescente tímido e franzino, o arquétipo do ‘intelectual de óculos’, é picado por aranha radioativa e passa a ter o poder de escalar paredes, saltar grandes distâncias e ter uma força equivalente a dez homens.

Não é uma trama digna de ganhar o Nobel de literatura, mas pode gerar muito entretenimento. E rios de dinheiro. O Homem-Aranha, desde a criação do personagem em 1962, era gente como a gente: sofre com namoradas, a falta de dinheiro da família, o fato de Peter Parker ser impopular, etc. O resgate do mito do patinho feio que vira cisne tem apelo para os jovens, que sofrem com as mudanças em seus corpos e estão sempre em conflito com um mundo que ao invés de fazê-los tão populares e ricos quanto era Elvis Presley nos anos 60, parece querer obrigá-los a usar terno e gravata e transformá-los em garçons, contadores, bancários, etc.

No filme, assim como nos quadrinhos, após ter levado a famosa picada que lhe confere poderes especiais, Peter Parker, ainda não sabe o que fazer com eles. Para arranjar um dinheiro, inscreve-se num concurso de lutas.

Nos quadrinhos, a seqüência da luta é aceitável, mesmo que os desenhos de Steve Ditko não sejam de primeira linha. Já no filme de Raimi, é justamente aí que se encontra o ponto que me incomoda: 1) Em primeiro lugar, o diretor parece crer que o espectador não sabe que o que nos EUA se chamava ‘professional wrestling’ (no Brasil, também conhecido como ‘Telecatch’) eram ‘lutas’ previamente ensaiadas entre dois homens grandes e atléticos e com resultados combinados, nas quais, salvo algum acidente, ninguém deveria se machucar. Ou então o diretor sabe que o espectador vê o filme como farsa e não se importa. 2) Ao enfrentar Peter Parker, o lutador Bone Saw McGraw, recebe uma cadeira de ferro de uma de suas assistentes, e bate com ela na cabeça de Parker – que, por alguma razão absolutamente inexplicável, apesar de estar no ringue para enfrentar uma montanha de músculos, neste momento estava de costas para o seu oponente. Parker recebe o golpe inesperadamente, sem ser avisado pelo seu ‘instinto de perigo’ do Homem-Aranha, instinto este que antes funcionara perfeitamente numa briga na cantina da escola.

Em qualquer lugar do mundo ocidental dar uma cadeirada na cabeça de alguém é tentativa de assassinato, não há esporte onde isto seja aceitável. Que Bone Saw McGraw o fizesse diante de milhares de espectadores pagantes é visto ali como perfeitamente normal. Depois ele parte para o uso pouco ortodoxo do pé-de-cabra. Isso é que é ‘Vale-tudo’ de verdade: esqueça o jiu-jitsu, o boxe tailandês, o negócio é bater nos outros com um pé-de-cabra.

Apesar de tudo, Parker vence a luta. Ao ir ao encontro do promotor do evento, ao invés dos três mil dólares prometidos este lhe entrega cem dólares, inventando uma desculpa. Já é estranho que um sujeito não hesite em trapacear um rapaz que, apesar de magrelo, mostrou-se forte o suficiente para vencer o colossal Bone Saw McGraw. Qualquer um ficaria meio receoso.

Porém, há mais: Parker, embora contrariado, aceita o engodo. Deixa a sala do promotor do evento e segue andando por um corredor. Logo depois, um assaltante armado entra na mesma sala, e apontando o revólver, obriga o espertalhão a lhe dar a féria do dia.

O ladrão deixa a sala correndo, segue pelo mesmo corredor em que Parker já se encontrava. O promotor do evento deixa a sala gritando que foi roubado, na esperança de alertar o segurança (como se um homem desconhecido – o ladrão – correndo pelo corredor já não fosse o suficiente para alertar o segurança.). O ladrão, ainda correndo, passa por Parker e pega o elevador (ele planejou antes sua rota de fuga? E se o elevador estivesse em outro andar, por onde ele sairia?). O segurança, e depois o promotor, chegam até o elevador depois de este já ter deixado aquele andar, e ambos reclamam com Parker que ele poderia ter parado o ladrão – afinal de contas, o normal num filme como este parece ser que um rapaz desarmado corra o risco de levar um tiro por um dinheiro que não é dele. Especialmente absurdo é o fato de o promotor do evento, o qual acabou de lograr Parker em 2.900 dólares (logro este potencializado pelo fato de Parker ter durante a luta levado golpes de cadeira e pé-de-cabra, ou seja, ‘não foi um dinheiro fácil’.) reclame com o jovem por este não ter ‘defendido o meu dinheiro’.

Pode soar ridículo reclamar de verossimilhança nestas cenas, quando o filme todo é absurdamente mentiroso. Mas se eu saio de casa pra ver o Homem-Aranha, estou aceitando que um jovem picado por aranha radioativa passe a ter o poder de escalar paredes. Que o Duende Verde tenha se tornado bem mais forte que os homens normais devido a um gás e que tenha acesso a um arsenal de armas não convencionais. E que o Dr. Octopus tenha conseguido desenvolver braços mecânicos extensíveis e super-fortes. Se eu não estivesse disposto a aceitar tais coisas, não sentaria pra ver tal filme. Mas que haja em Nova York um evento público onde alguém dê cadeiradas na cabeça de outro, não, isto não sou obrigado a engolir. Ali o pacto realizador/espectador foi violado, e o encanto do filme terminou para mim – continuei vendo, e achei a animação 3D ótima, mas não tinha mais como me envolver. Agressões à lógica à troco de nada me incomodam.

Quanto se gastou neste filme, em produção, efeitos visuais? Diante de todo este investimento, não havia entre todos os envolvidos alguém que, antes das filmagens começarem, pudesse olhar o roteiro e ser capaz de dizer ao diretor: ‘- Olha, esta cena não funciona por isto, isto, e isto. Mudando para isto aqui ficará muito melhor.’ Ou o ego do diretor simplesmente não aceitaria sugestões?

Do ponto de vista exclusivamente financista e pragmático de Hollywood, os erros que eu aponto aqui só podem ser ignorados. O filme rendeu rios de dinheiro, viabilizou uma seqüência que seguiu o mesmo caminho, a terceira parte já estreou e outras ainda deverão vir por aí. Então que interessa se há uma agressão à lógica? O grande público não se importa.

Mas quando escrevo estes textos, escrevo para as pessoas que tem interesse em roteiro, não para o público ávido por entretenimento ou os ‘financistas’ do cinema. Os roteiristas têm que saber reconhecer armadilhas como as descritas acima e evitá-las.

Já no ‘X-Men’ de Bryan Singer (feito em 2000) não se encontra este tipo de erro. As (muitas) mentiras que existem ali são as inerentes aos personagens, e por isso, me parece um filme muito mais correto do ponto de vista da dramaturgia. Bobo, claro; mas certinho.

Já na introdução do filme a questão do preconceito é bem colocada ao mostrar-se um garoto num campo de concentração. Descobrimos ali que o garoto tem uma fantástica capacidade de mover metais.

Então, tanto neste filme quanto em Homem Aranha estamos lidando com personagens incomuns com poderes pouquíssimo verossímeis. Já é algo que o espectador tem de relevar para sentir-se à vontade. Mas enquanto a cena da luta em H.A. joga o espectador inteligente para uma posição mais longe de engolir a trama, a cena do campo de concentração em X-Men, além de contextualizar o personagem cronológica e historicamente, já introduz o tema do filme, lhe confere certo peso dramático logo de saída, e traz aqueles personagens com poderes absurdos para mais próximo do ‘mundo real’.

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