Teatro 4

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Autor: Mauricio Dias – comoeueratrouxa

CENA: Mesa de bar – dia

A e B, homens de cerca de 30 anos.

A

Já ocorreram coisas com você que te fizeram pensar: estou ficando velho? Teu corpo não aguentar algo que aguentaria há dez ou quinze anos?

B

Não esperava ver um amigo meu falando disso antes dos 40. O que houve?

Instantes.

A

NÃO É NADA DE SEXO, seu pervertido. Se fosse eu falaria. É não conseguir correr no futebol, falta de ânimo, essas coisas. A frase do McCartney: “suddenly, i’m not half of man i used to be.” (Pausa) Uma porrada de portas se fecharam, caminhos ficaram pra trás. Tenho amigos que eu gosto muito e não vejo há três, quatro anos.

B

Então faz alguma coisa, porra.

A

Você sente que muita água já passou. E você não sente como se tivesse chegado a algum lugar.

B

Cara, é claro que as vezes fico desanimado, mas em geral acho a vida boa, e não me sinto velho, a não ser que vá a um lugar cheio de menininhas.

A

Sempre voltamos a mesma conclusão, hein? É isso também, mas não é só isso… O que eu fiz na minha vida? Queria ter aprendido a tocar algum instrumento. Não seria legal, tocar violão? Agora, Bach (gesto, como se tocasse). Agora, Tom Jobim (gesto). Fazer algo bonito, levar alegria às pessoas.

B

E viver com um pires na mão? Vida de músico é incerta.

A

Eu tenho medo de passar em branco pela vida. Chegar aos cinqüenta e olhar pra trás, pensar: o que eu fiz de bom?

B

Você não é casado, não tem filhos. Tua vida te pertence. Quer estudar música? Vai!

A

Tenho medo de me fuder.

B

Financeiramente?

A

Também. Van Gogh, que tinha talento, se fudeu. Ou pior ainda: se eu confirmar que não tenho o talento que eu achava que tinha.

B

Por que falou de Van Gogh? Não estava falando de música?

A

Era um exemplo… Então, tá, Mozart se fudeu.

B

Eu falei pra você estudar música, não pra largar seu emprego. Aos 30 anos você não tem o direito de ser ingênuo com era aos 20.

A

Podia ter nascido numa família com gosto pra música. Um pai que tocasse violão, uma mãe que fosse pianista, podiam ser amadores, apenas pra me ensinar os primeiros passos numa época adequada. Se meu pai tivesse me posto pra estudar quando criança…

B

Se fosse uma coisa imposta, você iria odiar música… Iria estar estudando, mas querendo mesmo estar jogando bola, ou na praia. Conheço gente que quando era criança tinha pesadelos com metrônomo.

A

Não, o esforço é muito menor. Hoje em dia, é complicado… Tenho de pagar as contas, não poderia me dedicar a música sem preocupação. E também, ficar eu, um burro velho, tirando escalas que um garoto de doze anos já deveria saber.

B

Você falou que portas se fecharam e caminhos ficaram pra trás, certo?

A

É… e é verdade.

B

Mas muitas das portas que se fecharam, só estavam abertas na sua cabeça, não no mundo real. Quando se tem 18 anos, gastamos energia nos dedicando a atividades que na verdade não são possíveis do ponto de vista prático. Nos apaixonamos por pessoas que não estão interessadas em nós. Gastamos energia e neurônios em algo que não tem futuro. Constatarmos que estas portas estão fechadas pode ser um sinal de amadurecimento. Não importam quais portas estão fechadas, e sim quais as portas por onde posso entrar.

A

Mas isso é assustador. Você percebe que suas opções são limitadas, que boa parte do seu caminho já está traçado.

B

Mas estas opções já eram limitadas antes. A diferença é que agora você tem consciência disso. Pode agir dentro do seu leque de possibilidades.

A

“Suddenly, i’m not half of man i used to be.”

B

Você nunca foi o homem que você pensava, era só imaginação sua: você não ia jogar futebol como o Pelé, não ia tocar guitarra como o Hendrix, não ia ser rico como o Rockefeller. Agora, o fato de ter consciência disso demoliu suas fantasias. É encarar o mundo real. E não é necessariamente ruim. O que você vai fazer com as fichas que tem?

A

Não sei…

Apagam as luzes. FIM.

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3 respostas para Teatro 4

  1. Maloca disse:

    Me fez lembrar aquele texto do Kafka do cara diante de uma porta vigiada por um guardião. O homem não existe, ou existe pela metade, sem suas ilusões.

  2. mauricioodias disse:

    Grande Maloca!
    Na versão que Orson Welles dirigiu baseado em “O Processo”, este conto que vc falou é a base para um preâmbulo – onde todas imagens são feitas por Alexandre Alexeieff e Claire Parker.
    Não recordo do texto ipsis literis, mas do que eu lembro, não vejo muita semelhança.
    Abraço. MD

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